domingo, 13 de março de 2022

DF tem queda na cobertura de vacinação contra pólio; novos casos no mundo são alerta para risco de volta da doença

 

Por Brenda Ortiz, g1 DF

Vacina contra a pólio é aplicada em gotas — Foto: Venilton Kuchler/Arquivo AEN

Vacina contra a pólio é aplicada em gotas — Foto: Venilton Kuchler/Arquivo AEN

poliomielite ressurgiu em Israel e também teve um nova cepa registrada no Malaui, sudeste da África, na última semana. No Brasil, o último caso da doença foi em1989, mas a notícia preocupa porque o país entrou na lista de 'alto risco' de volta da pólio.

A cobertura vacinal caiu de 96,55%, em 2012, para 67,71% em 2021.

No Distrito Federal, o cenário não é diferente. Em 2021, a cobertura vacinal contra a poliomielite ficou em 75% segundo a Secretaria de Saúde.

Em 2019, ela havia atingido 86% do público-alvo. Um ano depois, em 2020, o índice caiu para 82%. Conforme a pasta, desde 2017 a cobertura vacinal de todas as vacinas do calendário infantil vem diminuindo.

A meta é ter, anualmente, 95% de todas as crianças vacinadas contra a poliomielite. No entanto, nesses dois anos de pandemia de Covid-19 registraram os piores índices desde 2012.

Segundo a médica do Departamento de Pediatria Ambulatorial da Sociedade de Pediatria do DF (SPDF), Andrea Jacomo, a queda nos índices de vacinação é grave, e coloca a saúde do Brasil em risco.

"Em 2019 já tivemos o reaparecimento do sarampo, que era uma doença erradicada no país. Aqui no DF, não chegou a ser um problema porque intensificamos a campanha de vacinação e tivemos essa resposta do público alvo. Mas existe um grupo antivacina que vem atrapalhando um trabalho feito desde os anos 80", diz a médica.

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Andrea explica que a poliomielite é uma doença muito mais grave que o sarampo. "Não é uma doença que vai ser curada com medicamentos, e além da paralisia, ela também pode matar, se atingir músculos do pulmão, por exemplo. Isso é muito sério", alerta.

Segundo a médica, o caso de Israel – apesar de estar longe do Brasil – deve ser visto como um alerta.

"Nossa baixa cobertura vacinal deixa a população exposta. Até porque a vacina é a única forma de proteção contra a pólio. Fora que da forma que o mundo existe hoje, uma doença lá do outro lado do mundo não demora a chegar aqui."

Tendência de queda na cobertura

Cobertura vacinal contra a pólio no Brasil (2012-21)
Dado considera as três primeiras doses, dadas no primeiro ano de vida
96,5596,5510010096,7696,7698,2998,2984,4384,4384,7484,7489,5489,5484,1984,1976,0576,0567,7167,7120122013201420152016201720182019202020210102030405060708090100110
2012
96,55
Fonte: DataSUS

Em 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta dizendo que "os casos registrados de sarampo e poliomielite haviam aumentado em todo o mundo". O g1 trouxe os dados daquele ano: a cobertura contra a pólio estava em 77%, com tendência de queda.

À época, o Ministério da Saúde já informava que 312 municípios brasileiros estavam com baixa cobertura para a vacina contra a poliomielite e não haviam vacinado nem metade das crianças menores de um ano.

Desde então, o cenário piorou. De acordo com os infectologistas entrevistados pelo g1não existe uma outra forma de frear a pólio a não ser a vacina.

Sobre a pólio

A poliomielite, também chamada de "paralisia infantil", é uma doença infectocontagiosa transmitida por um vírus. Ela é caracterizada por um quadro de paralisia flácida.

O início é repentino e a evolução do déficit motor ocorre, em média, em até três dias. A doença acomete, em geral, os membros inferiores, de forma assimétrica, e tem como principal característica a flacidez muscular.

O Brasil está livre da poliomielite desde 1990, segundo o Ministério da Saúde. Em 1994, o país recebeu a Certificação de Área Livre de Circulação do Poliovírus Selvagem da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

Vacinação contra poliomielite em 1993 no DF
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Vacinação contra poliomielite em 1993 no DF

Zé Gotinha

No início das campanhas de imunização, na década de 1980, o personagem "Zé Gotinha" virou mascote e símbolo da erradicação da poliomielite no Brasil. Na época, uma campanha de saúde pública foi organizada para erradicar a doença responsável pela paralisia infantil.

No DF, o pico da epidemia de poliomielite foi em 1986, e o último caso foi registrado um ano depois, em 1987. As campanhas de imunização ganharam reforço com o personagem e passaram a ser rotina.

Em 1988, Zé Gotinha saiu dos panfletos e virou mascote, a partir de uma sugestão de uma criança do Paraná. De acordo com o criador do personagem, Darlan Rosa, depois disso "as campanhas de imunização passaram a ser um sucesso".

"A meta era vacinar 15 milhões de pessoas em apenas um dia, pra ter 96% de cobertura vacinal, e nós conseguimos. Foi um trabalho árduo, mas muito gratificante", diz Darlan.

Zé Gotinha — Foto: Reprodução/JN

Zé Gotinha — Foto: Reprodução/JN

Naquele ano, a cobertura no DF foi de 100%. Depois disso, Zé Gotinha passou a fazer parte de outras campanhas como a de sarampo, da rubéola, da caxumba e da hepatite.

Em 1994, o personagem foi apresentado na Disney, e ganhou o mundo. Zé Gotinha esteve em 150 países, como Angola, onde havia alto índice de poliomielite e a erradicação ocorreu em três anos trabalho.

Leia outras notícias da região no g1 DF.

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